quinta-feira, 1 de março de 2012

Entrevista com Rogério Sandoval - Criador do ADESTRAMENTO ON-LINE.

Entrevista com Rogério Sandoval
Entrei na cinofilia em 1984 através do adestramento, pois morava próximo ao campo da Sociedade Paulista de Cães Pastores Alemães. Em 1985 comprei uma Rottweiler e já nessa época eu ajudava a organizar grupos de treinamento e fazia o trabalho de figurante. Comecei a gostar e a treinar o IPO somente em 1987 e a partir dai, ao mesmo tempo em que eu corria atrás de conhecimento, eu repassava aos meus alunos. Participei de várias diretorias de clubes organizando provas e ajudei a implantar o IPO nos clubes de Rottweiler do país, além de ter ajudado a trazer muitos treinadores de renome para realizar seminários. Formei três cães até o IPO 3 (dois rotts e um pastor), sendo que em 2002 eu ganhei o ranking da APRO como o melhor treinador do ano, em 2003, com o cão Wotan, venci o campeonato brasileiro do rottweiler APRO, em 2004, também com o Wotan, fiquei em terceiro lugar no campeonato brasileiro inter raças (entre 12 cães no IPO 3). Em 2008, no campeonato brasileiro do pastor alemão, apresentando o cão Kliff, embora tenha reprovado no faro, fizemos a melhor seção de obediência e a segunda melhor proteção. Como técnico, tive vários resultados de expressão com os meus alunos. Procuro sempre estar participando dos seminários com os mestres internacionais e por diversas vezes viajei ao exterior para me atualizar. Me formei como árbitro de adestramento em 2005 e tenho julgado diversas provas.  Nos últimos 3 anos montei um grande projeto que vem crescendo muito e ajudando pessoas de todos os cantos do Brasil a aprender e se interessar pelo adestramento, o Adestramento ON-LINE, que hoje conta com mais de 120 participantes.

•Quando começou a praticar esportes com os cães?
Comecei a treinar cães como hobysta em 1984, mas somente em 1987 que eu me entusiasmei pelo esporte. De inicio eu tinha um grande preconceito, pois não gostava da ideia do cão esportivo no trabalho de proteção. Aos poucos passei a perceber que o real conhecimento de adestramento estava nas mãos daqueles que treinavam cães para esporte de alto nível.

•Qual esporte com cães você pratica e quais seus reais interesses no esporte?
Eu me interesso por todo e qualquer tipo de treinamento, seja esportivo, de utilidade, ou apenas para melhorar o convívio entre dono e cão, mas o esporte que mais me fascina e que eu pratico é o IPO (Schutzhund), embora eu sempre esteja aberto para conhecer de tudo.
O IPO é um esporte muito complexo, pois são três seções distintas como um triátlon. Se você pretende treinar para ser competitivo, além de suar a camisa, vai ter que estudar sobre comportamento animal e vai ter que se atualizar nos seminários com os experts desse esporte. Isso vai te valer uma enorme bagagem que será benéfica para qualquer outra modalidade de treinamento esportivo ou de utilidade.

•Qual a Raça Você utiliza e Por quê?
Gosto de todas as raças. Tenho um especial gosto pelo Rottweiler (que estudei por mais de 20 anos), mas atualmente estou com Pastor Alemão, já que foi a raça com maiores investimentos em linhagens de cães de trabalho no Brasil. Aos poucos estou vendo um bom esforço de alguns criadores de Dobermanns e Malinois de trabalho.
Penso que um bom cão pode aparecer em qualquer raça e em qualquer canil. É logico que aqueles que selecionam com seriedade têm mais chances de tirar bons exemplares de suas criações.

•Qual sua maior e melhor conquista nestes anos todos como esportista?
Entre 2002 e 2004 tive diversas conquistas. Senti um grande gosto tendo resultados expressivos conduzindo Rottweilers entre uma maioria de Pastores Alemães e em diversas competições, meu cão Wotan obtendo a melhor seção de proteção. Em 2008, somente não senti isso novamente, pois o meu cão (Kliff) se perdeu na pista de faro, mas as conquistas que me deixaram mais contente foram através de alunos que obtiveram resultados expressivos em campeonatos.

•Nos conte um pouco sobre representar o Brasil lá fora.
Assisti a diversos campeonatos (Mundial FCI, BSP SV, DM ADRK, IDPM – policia) na Europa, porem nunca cheguei a participar. Esse é um sonho que eu vou batalhar para realiza-lo com um próximo cão, mas não posso prever quando isso pode acontecer.

•Qual a sua crença com relação aos métodos de ensino?
Para que a pessoa interessada consiga obter bons resultados, ela vai precisar adquirir feeling. Para isso ela necessita de grande força de vontade (para por a mão na massa), alguém mais experiente (com mais feeling) para supervisioná-la a treinar corretamente e esforço para se aprofundar na parte teórica. Eu montei o projeto do Adestramento ON-LINE com o objetivo de ensinar a parte teórica de forma que as pessoas possam visualizá-la na prática e para isso tenho utilizado o auxilio de uma quantidade enorme de vídeos fantásticos. Na verdade, a teoria vai servir para que se planeje mais o treino e a finalidade principal é que vá se preparando a pessoa para que ela consega melhores experiências e vá aprendendo a sentir cada vez melhor o seu cão. Penso que se treina um cão através de sensibilidade e tudo (teoria e pratica) deve convergir para isso.
Sobre o cão, eu não acredito em um método de ensino, mas penso que é preciso conhecer um pouco sobre Pavlov (Condicionamento Clássico), Skinner (Condicionamento Operante), Konrad Lorenz (Etologia) e como se coloca tudo isso na pratica de forma inteligente. Conhecer um pouco sobre a psicologia comportamental e a Etologia é algo essencial que vai auxiliar muito a quem treina cães. Os diversos seminários que temos participado servem para visualizarmos como aplicar essa bela teoria à realidade prática. São pessoas de ponta no esporte que tem a sua própria linha de trabalho e conseguem adequá-la de forma mais racional a cada individuo e, sobretudo, conseguem resultados práticos de destaque.
Eu sou uma pessoa nada talentosa para treinar cães. Consigo fazer isso, pois sempre procuro estar atualizado na parte teórica e procuro me organizar para a pratica. Foi assim que consegui bons resultados, mas principalmente, por ter tido muita dificuldade, fui aprendendo como me tornar cada vez mais didático para ensinar donos.
•Qual foi o seminário que mais valeu a pena?
É provável que eu seja a pessoa que mais participou de seminários nesse país. Participei de mais de 50, fora as diversas viagens e treinos que fiz ao exterior. Fico com receio de fazer injustiça, mas funciona como musica, você gosta de varias, mas simpatiza mais com os últimos discos que está ouvindo. Já faz um bom tempo que tenho dado preferência a participar dos seminários onde ensinam a base através de motivação (base de Reforço Positivo).
•Como você evoluiu como condutor e treinador?
Entrei no adestramento em 1984. Era muito complicado ter contato com gente de fora. Trabalhava-se com Reforço Negativo como base e apenas um pequeno agrado para motivar o cão. Os cães obedeciam por obrigação.
No inicio de 90 comecei a importar vídeos e a distribuí-los para muitas pessoas. Na metade de 90 começamos a convidar seminaristas. Na época, não tínhamos a noção que era fácil convidar um campeão mundial ao invés de um simples treinador e cometemos o erro de trazer gente não tão de ponta. No final dos anos 90 começamos a aprender e a convidar gente que formava cães baseados em R+, treinadores de expressão. Quem entrou no adestramento de 15 anos para cá, leva uma grande vantagem e não tem ideia das dificuldades que passamos até meados de 90.
Outro ponto que dificulta muito também é a falta de grupos de treinamento, ou melhor, equipes. São raríssimos os grupos de treinamento no Brasil, e equipes, ainda mais raras. Penso que somente uma equipe pode propiciar bons resultados. É preciso ter afinidade entre os participantes e é preciso que seja dado suporte a cada um de forma individual sempre que este esteja participando. Numa equipe, as pessoas também se reúnem extra treino, tem de existir real prazer em ver o amigo tendo bons resultados.

•Qual a fase mais fácil em sua opinião? Por quê?
Penso que todas as fases são difíceis, mas acho que a seção de obediência abre as portas para as outras seções, pois tanto o faro, quanto a proteção envolvem muita obediência.

•Qual a mais difícil? Por quê?
Trouxemos bons figurantes, temos trazido bons especialistas em obediência, mas ainda não trouxemos especialistas em faro. Temos procurado sempre locais mais fáceis para as nossas provas de faro. Está na hora de investirmos mais em aprender técnicas de ensinar cães a farejar em situações mais complicadas.

•Qual a relação entre o esporte e a criação?
Existe aquela disputa boba entre os praticantes dos diferentes Ring Sport e do IPO para ver qual desses esportes seleciona melhor os cães. Minha opinião pessoal é que não se conhece um cão em poucos minutos de avaliação. Penso que para você poder falar mais precisamente sobre um cão, é necessário que você o esteja treinando e vendo como ele evolui no treinamento, como são os seus impulsos, a sua estabilidade nervosa, a sensibilidade e as restrições que pouco ou nada evoluem. Dessa forma você estará vendo o Fenótipo desse cão.
Saber como ele reproduz é outra estória. É preciso estudar pedigree europeu, entender das linhas de sangue, as características de cada linha, como combiná-las com outras linhas. É preciso estabelecer a fêmea como base da criação.
Na Europa, o Clube Alemão do Malinois (DMC), faz um controle muito mais rígido do que é realizado nas outras raças. A prova de seleção (Körung – pronuncia-se Quêrun) é muito mais detalhada e avalia realmente cada animal. O livro de criação deles também é muito mais detalhado.
A raça Pastor Alemão depende da boa vontade dos seus criadores de trabalho, já que a seleção dos clubes é realizada sem qualquer rigor para a parte de comportamento.

•Como você escolhe um filhote?
Penso que por melhor que se escolha um filhote, ele sempre será uma promessa. Dos 5 sentidos, somente o Olfato, o Tato e o Paladar vão estar disponíveis desde o inicio. A Visão e a Audição vão aparecer após uns dias. Ao redor dos 50 dias, todos os sentidos estão desenvolvidos, mas o cão aprendeu muito pouco. Nessa fase você deverá desenvolvê-lo ao máximo. Ele precisa aprender a utilizar todos os sentidos conjuntamente, a desenvolver sua coordenação motora. Conforme você maneja os filhotes, também observa como cada um reage, como cada um evolui sobre as restrições observadas.
Vou escolher cães pouco restritos e que evoluam bem conforme ele vá sendo manejado.
Poucos falam sobre isso, que existem cães restritos, mas que tem uma capacidade de aprender muito grande e isso faz com que esse cão, nas mãos de um bom treinador, possa surpreender em campeonatos.
É muito complexo escolher um filhote.

•Qual seu ponto de vista da relação entre a educação do cão e confiança com o dono?
Quando eu digo que gosto do trabalho baseado em Reforço Positivo, não estou dizendo que não deva existir punição. Você deve formar uma base bem solida em motivação. Quando o cão já conhece o comportamento que você espera dele, mas ele resolve provar o outro lado da cerca, a consequência precisa ser uma punição rápida para que ele saiba que obedecer é muito gostoso, porém, a desobediência é desagradável. Em seguida tudo volta a ser bom novamente. Na pratica, isso não é fácil de conseguir, mas é uma logica necessária para todas as pessoas que pretendem se aventurar pelo adestramento.
A educação e a socialização são questões básicas que antecedem o adestramento. O cão ter o convívio em diversos e diferentes ambientes, saber o que pode e o que não pode fazer, tudo facilita o futuro adestramento.
A questão da Confiança vem da coerência do treinador em ser consequente na hora certa. Se o cão sabe que está errado e a punição vem na dose exata, isso jamais vai destruir a confiança dele pelo treinador.  Outra questão ligada à confiança está em observar a linguagem corporal do cão. É por isso que o treinador somente deve atuar com razão na hora de punir. Você só deve punir o que está errado, nada além. Na hora de voltar a premiar, é preciso observar que o cão te mostre sinais de autoconfiança novamente (orelhas armadas, rabo em pé, corpo confiante). O cão confia em você quando ele sabe que a punição é somente sobre o comportamento que está errado, mas não é sobre ele. Ele sabe que você continua a adorá-lo da mesma forma.

•Como ou o quê você faz no dia a dia com seu cão?
Não estou treinando meus dois atuais cães para provas. Eles estão aposentados, porem eu continuo treinado os fundamentos com os dois. Sempre faço isso na hora de liberá-los para comer, ou para passear. Estou também direcionando os dois para me proteger. Isso também é outra lenda, que cão treinado para esporte fica estragado para defesa pessoal. O esporte deu uma base fantástica para os dois. Tudo é simples questão do cão ter sido bem treinado, ter desenvolvido bem, tanto o impulso de presa, quanto a agressão ativa.

•Como manter o equilíbrio entre a motivação e concentração?
Eu penso que é preciso formar o cão em impulso mais baixo, ou seja, com a comida e não com o brinquedo. O brinquedo só deverá ser utilizado para brincar com o cão, ou mais tarde, quando ele já souber a exatidão do exercício. Nessa fase, ele entra para aumentar a motivação.
Logicamente que existem técnicas mais avançadas, mas eu estou fazendo uma observação pensando nas pessoas comuns que pretendem conseguir treinar seus cães.
Para manter o cão motivado e concentrado você precisa criar uma estratégia de reforçar o comportamento com intermitência e saber a hora certa tanto para marcar o comportamento, quanto para liberar o cão para o prêmio.

•Como você define um bom Cão para o esporte e sua relação com a mordida de boca cheia?
Em minha opinião ...
A seção de proteção pede que ele morda Forte, Estável e Cheio. Logico que um bom treino ajuda, mas isso já deve vir natural do cão.
Para quem quer um bom cão de esporte, o impulso de presa é dos comportamentos mais importantes junto a uma boa estabilidade de nervos. O cão deve ter suficiente dureza, que não seja sensível, mas reaja bem ás correções. Adapta-se bem aos diferentes ambientes.
Eu não gosto de cães agitados. Quero um cão que eu possa liga-lo na hora que precisar, mas não quero um que esteja ligado o tempo todo, ou seja, quero um cão calmo e com bons impulsos.
Fisicamente, quero um cão com boa conformação. Não gosto de cães muito angulados, nem longos e nem pesados. Gosto de cães compactos e que já tenham boa mobilidade e firmeza na movimentação desde bem cedo. Quadris, cotovelos e coluna livres de problemas, em minha opinião, são características essenciais. Quero um cão saldável e longevo.  Para mim, isso é mais importante ainda do que o temperamento para o esporte.

•Qual o conselho você pode dar aos jovens que estão iniciando no esporte?
Ter a mente aberta.
Investir em conhecimento antes de pensar em adquirir um cão.
É preciso realmente gostar de cães e isso implica que em determinados momentos os resultados podem ficar em segundo plano.
É preciso ter algumas virtudes: Paciência, Determinação, Disciplina, Planejamento. Sem essas virtudes ninguém chega aos resultados almejados.
Talento é algo que raras pessoas tem. Se você perceber que não tem talento, lembre-se que a maior parte das pessoas também não tem e que para se destacar é preciso ser persistente.

•Como você acredita que será o futuro do esporte na América Latina?
Nossos dirigentes já nos mostraram que não podemos depender dos nossos clubes, pois eles não vão dar apoio e não se importam com o adestramento. Cinofilia oficial na América Latina só existe nas exposições de beleza.
Dependemos das ações das pessoas e de iniciativas privadas de empresários que possam se entusiasmar com esses fantásticos esportes.
Como falei logo no inicio da entrevista, criei um projeto que se chama Adestramento ON-LINE que vem contribuindo de forma muito efetiva pra a difusão do conhecimento do adestramento. É um curso e uma revista digital ao mesmo tempo. Acesse o link abaixo para ter maiores informações.


http://www.ssrogerio.com.br/2012/

3 comentários:

  1. Apreciei cada palavra publicada aqui,
    você é um cavalheiro senhor Diniz.
    Jean (Canil Simba).

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  2. Parabéns pela entrevista. O Rogério se destaca pela sua vontade de divulgar o adestramento bem-feito no nosso país. E tenho percebido a sua grande capacidade e empenho em ensinar e estimular as pessoas para que tomem conhecimento com esta modalidade de esporte, e também, para que consigam se relacionar melhor com os cães, de forma responsável.
    Rogério, parabéns para você!

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  3. Parabéns ao Aguinaldo pelo pró ativismo em destacar e homenagear um dos icones do adestramento no Brasil, meu amigo Rogério Sandoval. Sempre é muito motivador saber que uma pessoa, mesmo depois de tantos anos de trabalho arduo, de frustrações de ser impedido politicamente, de traições, mesmo não treinando seus cães não sai desse meio de pessoas tão desleais e ainda se motiva e se coloca a disposição dos novos treinadores e se coloca humildemente como uma pessoa sem talento para treinar cães...rs Olha Rogério, por essas e por outras que te admiro e respeito cada dia mais! Meus Parabéns.
    Abraço, Rico Teixeira - Ctba-Pr

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